Remonta ao tempo do onça o hábito de a torcida vaiar e agredir jogadores e técnicos de futebol. Começou com a primeira derrota, o frango primordial. O onça foi esquecido, embora a prática bárbara continue popular. Os tempos mudam uma hora destas. E mudaram para o Gilmar.
Ele é chefe de uma torcida de um tradicional clube de futebol da capital. Pode ser chamado de fanático. Seu lado positivo é organizar excursões quando o time joga fora, conferir os treinos, pintar faixas. Sabe conciliar as atividades com a de caixa de banco. O lado negativo está em não suportar quando o time perde uma partida. Toda vez que isso acontece, chama seu bando de choque e dá um jeito de espezinhar ou agredir a equipe.
Um dia Gilmar combinou com a torcida de jogar moedas no campo na direção de Uonderson, o atacante que idolatrava. Como Uonderson recebeu uma proposta melhor de um clube estrangeiro, tudo mudou. De herói, passou a saco-de-pancada.
No jogo seguinte, Gilmar esperou Uonderson se aproximar da lateral para puxar o coro: ”Mercenário! Mercenário”. Enquanto isso, uma chuva de moedas atingia o atleta. Não foi o bastante, Gilmar e gangue esperaram o jogador à saída do vestiário. Em formação de correcor polonês, desferiram-lhe uma saraivada de cascudos. O jogador foi para casa humilhado no seu carrão importado. No ônibus, a turma de Gilmar só ria.
Uonderson planejou sua revanche. E como vingança é um prato frio, demorou semanas para se realizar. Na manhã do dia 5 do mês de dezembro, Gilmar pegou no serviço. De paletó e gravata, sentou-se ao caixa para iniciar um expediente cheio, pois era dia de pagamento. As portas se abriram. Um grupo de rapazes fez fila diante dele. Eram un 20 atletas de seu time, ecabeçados por Uonderson. “E aí, vai demorar pra atender?”, gritou o craque. “Calma, amigos, vou atender a todos!”, replicou o bancário, pasmo. “Mano, cê tá demorando”, falou alguém de trás da fila. Outro ofendeu: “Você não vale nada!” Gilmar não teve tempo de pensar, nem o segurança de intervir. O bando avançou, deu-lhe cascudos e o arremessou para o alto, gritando: “Mercenário! Mercenário!” Uonderson mandou colocarem Gilmar de volta à cadeira, e proclamou. “É para você aprender como a gente se sente quando a torcida nos agride. A gente é tão profissional quanto você. Dói, né?” No fim, o time à paisana lançou sobre o subgerente um tornado de notas de um real, e se retirou às gargalhadas. Gilmar quis morrer, mas engoliu em seco e atendeu o primeiro cliente.
Será que aprendeu a lição? Quase. Agora mesmo ele está lá no centro de treinamento do clube, todo feliz, jogando pipoca nos jogadores...
terça-feira, 20 de outubro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Papagaio Ilegal
Outro dia a Polícia Civil apreendeu na Zona Norte 230 aves silvestres. Os pássaros estavam presos em 30 gaiolas, coitados: canários, sabiás, cardeais e papagaios. Antigamente esses bichos eram de estimação, faziam parte do cotidiano das nossas casas. Hoje foram promovidos a animais silvestres raro, protegidos - e, por isso, cobiçados pelos traficantes. É bizarra a dança da civilização. Nossas mães penduravam gaiolas na cozinha; agora os engaiolados se uniram contra os lares. Se alguém quer criar em casa um animal silvestre,deve se registrar no Ibama – ou entrar para a ilegalidade.
O que escrevi acima serve como um belo bico de cera para o assunto desta crônica: quase cometi um crime por adotar um papagaio... de nome Rigoletto. Tudo se deu há poucas semanas, ao visitar uns primos no interior. Na volta, eles queriam me presentear com um papagaio, neto do Louro, que reina aboluto por lá há 37 anos. Não seria uma proposta tentadora, caso o jovem espécime não se revelasse um prodígio. Ainda me espanto com ele: o bicho assobia, dança, canta, pensa, fala, discute. Por ser levemente corcunda, recebeu o nome do bobo-da-corte de Mântua que intitula a ópera de Giuseppe Verdi.
Mas o Rigoletto bicudo é elegante. Não usa a fantasa grotesca, sua filha não foi desonrada pelo Duque nem possui o registro de barítono. Também não defende árias de ópera. Rigoletto tem a voz aguda e rouca, desconhece os palavrões e adora o repertório pop. Interpreta “A Ponte do Rio Kwai” (primeira e segunda partes), “Parabéns a Você”, o “Hino do Palmeiras” (sua formação é italiana...) e, juro,“Love Generation’, sucesso recente de Bob Sinclair, sem ignorar o refrão com assobios. Quando ninguém está na cozinha, chama as pessoas pelo nome. Dá para resistir?
Pássaros como os sabiás e canários criaram a música – e os papagaios foram seus primeiros divulgadores. Isso até o homem aprecer, para roubar a arte daqueles, o engenho destes - e depois inventar a ornitologia, a ecologia e... o Ibama.
Meus primos me avisaram que Rigoletto não tem registro legal. Resolvi que não poderia adotar o bicho.Voltei para casa com o coração asobiando tristemente “Love Generation”. Os primos me mandam agora pelo MSN fotos e vídeos de Rigoletto com o olhar suplicante, na esperança de me convencer a ficar com ele. Mas vou resistir á tentação de entrar para o crime...
O que escrevi acima serve como um belo bico de cera para o assunto desta crônica: quase cometi um crime por adotar um papagaio... de nome Rigoletto. Tudo se deu há poucas semanas, ao visitar uns primos no interior. Na volta, eles queriam me presentear com um papagaio, neto do Louro, que reina aboluto por lá há 37 anos. Não seria uma proposta tentadora, caso o jovem espécime não se revelasse um prodígio. Ainda me espanto com ele: o bicho assobia, dança, canta, pensa, fala, discute. Por ser levemente corcunda, recebeu o nome do bobo-da-corte de Mântua que intitula a ópera de Giuseppe Verdi.
Mas o Rigoletto bicudo é elegante. Não usa a fantasa grotesca, sua filha não foi desonrada pelo Duque nem possui o registro de barítono. Também não defende árias de ópera. Rigoletto tem a voz aguda e rouca, desconhece os palavrões e adora o repertório pop. Interpreta “A Ponte do Rio Kwai” (primeira e segunda partes), “Parabéns a Você”, o “Hino do Palmeiras” (sua formação é italiana...) e, juro,“Love Generation’, sucesso recente de Bob Sinclair, sem ignorar o refrão com assobios. Quando ninguém está na cozinha, chama as pessoas pelo nome. Dá para resistir?
Pássaros como os sabiás e canários criaram a música – e os papagaios foram seus primeiros divulgadores. Isso até o homem aprecer, para roubar a arte daqueles, o engenho destes - e depois inventar a ornitologia, a ecologia e... o Ibama.
Meus primos me avisaram que Rigoletto não tem registro legal. Resolvi que não poderia adotar o bicho.Voltei para casa com o coração asobiando tristemente “Love Generation”. Os primos me mandam agora pelo MSN fotos e vídeos de Rigoletto com o olhar suplicante, na esperança de me convencer a ficar com ele. Mas vou resistir á tentação de entrar para o crime...
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Futebol e drama
Sou aquele torcedor que abaixa o som da televisão, liga o radinho e passa o fim de semana grudado nas notícias de seu time. Como palmeirense, meus últimos domingos têm sido repletos de emoções negativas: raiva, inveja, vontade de dar um coco no Marcos e um cascudo no Luxemburgo. Não vou apoiar os bárbaros que agrediram o treinador, mas consigo entendê-los. Onde já se viu jogar a toalha antes de terminar o campeonato?. E o desespero da equipe, capiteneada pelo São Marcos, o mártir, o louco? Enquanto isso, o São Paulo segue invencível e o Grêmio cola, na marcação agressiva e fria. Ficamos para trás, e lá se foi mais uma vez o meu domingo..
Por isso, prometi dar um basta ao futebol. Foi o que declarei à minha mulher à noite: “Perder mais um dia de sol, nunca mais!” Ela me olha divertida: “Você fala assim agora. Domingo que vem vai estar com o olho pregado na TV de novo”. Juro que não. Ela ri e diz que pelo menos times como o Palmeiras dão grandes emoções, diferentemente do São Paulo (é são-paulina), “que só ganha”.
Pensando bem, é isso mesmo. Há dois gêneros de time: os calculistas e os dotados de espírito trágico. O São Paulo pertence à primeira categoria. Deve seguir vencendo nos campeonatos de pontos corridos. O Palmeiras, assim como o Corinthians e a Portuguesa, comete tanto proezas como falhas épicas. Times assim lutam para fugir do rebaixamento porque amargaram na Segundona. Conhecem o drama. O tricolor permanece no alto, olímpico e indiferente aos concorrentes. Indiferente à precariedade humana, enfim.
Sou voz vencida, mas insisto em criticar o critério de pontos corridos. Ganham sempre as equipes regulares. Vejo o futebol como uma praça de touros. O sangue precisa voltar à arena. Sonho com a volta dos quadrangulares em mata-mata, a rivalidade entre torcidas, e a sorte. Talvez com o retorno do Corinthians, ano que vem, o Palmeiras recobre o seu papel. Pois não há drama sem antagonista.
Não é o caso do São Paulo. Penso nele como um Zeus de tragédia, que está matando o esporte lentamente, com o veneno da previsibilidade. Para salvar o que resta, minha sugestão é que, daqui para frente, o São Paulo receba o título de hors concours. Como o saudoso Clóvis Bornay nos concursos de fantasia. Digo sem malícia: Bornay vencia sempre, então os jurados lhe atribuíram a honraria de competir já como campeão. Que o São Paulo seja hors concours e deixe o os outros manter vivo o drama.. O futebol ficou sem graça.- exceto, obviamente, para os são-paulinos...
Por isso, prometi dar um basta ao futebol. Foi o que declarei à minha mulher à noite: “Perder mais um dia de sol, nunca mais!” Ela me olha divertida: “Você fala assim agora. Domingo que vem vai estar com o olho pregado na TV de novo”. Juro que não. Ela ri e diz que pelo menos times como o Palmeiras dão grandes emoções, diferentemente do São Paulo (é são-paulina), “que só ganha”.
Pensando bem, é isso mesmo. Há dois gêneros de time: os calculistas e os dotados de espírito trágico. O São Paulo pertence à primeira categoria. Deve seguir vencendo nos campeonatos de pontos corridos. O Palmeiras, assim como o Corinthians e a Portuguesa, comete tanto proezas como falhas épicas. Times assim lutam para fugir do rebaixamento porque amargaram na Segundona. Conhecem o drama. O tricolor permanece no alto, olímpico e indiferente aos concorrentes. Indiferente à precariedade humana, enfim.
Sou voz vencida, mas insisto em criticar o critério de pontos corridos. Ganham sempre as equipes regulares. Vejo o futebol como uma praça de touros. O sangue precisa voltar à arena. Sonho com a volta dos quadrangulares em mata-mata, a rivalidade entre torcidas, e a sorte. Talvez com o retorno do Corinthians, ano que vem, o Palmeiras recobre o seu papel. Pois não há drama sem antagonista.
Não é o caso do São Paulo. Penso nele como um Zeus de tragédia, que está matando o esporte lentamente, com o veneno da previsibilidade. Para salvar o que resta, minha sugestão é que, daqui para frente, o São Paulo receba o título de hors concours. Como o saudoso Clóvis Bornay nos concursos de fantasia. Digo sem malícia: Bornay vencia sempre, então os jurados lhe atribuíram a honraria de competir já como campeão. Que o São Paulo seja hors concours e deixe o os outros manter vivo o drama.. O futebol ficou sem graça.- exceto, obviamente, para os são-paulinos...
sábado, 22 de agosto de 2009
Vista para o mar
Quem disse que São Paulo não tem praia? Basta dar uma olhada na rua nesta sexta-feira por volta das seis da tarde. As “prainhas” se espalham por todos os quadrantes da metrópole, do centro à periferia, invadindo também os bairros mais ricos. Assim são chamados os bares com mesas nas calçadas. Ali o pessoal se reúne, bebe cerveja, faz barulho e joga conversa fora. É um espaço cenográfico que simula areia e mar. Só não há nada disso por mera contingência.
Vamos nadar pela História. A colonização do Brasil começou na praia. Martim Afonso de Sousa fundou a vila de São Vicente em 1532, a primeira povoação brasileira. São Paulo de Piratininga foi criada 22 anos depois, num planalto magnífico próximo ao oceano. No início, não passava de um reduto indígena gerenciado por jesuítas. Para os padres, tratava-se do local mais aprazível do planeta – que eles conheciam bem, pois percorriam os continentes conhecidos O clima era ameno, as montanhas suaves, rios e vegetação abundantes. E ficava num ponto estratégico, entre o mar e o interior desconhecido do Brasil. Por isso, os bandeirantes apelidaram São Paulo de “a boca do sertão”. Pela boca se iniciou a exploração do interior. Isso deu ao reduto, mais tarde vila e, por fim, cidade, uma carcterística: a cabeça bifronte, contemplando a um só tempo o sertão com espírito de aventura, e o mar, com nostalgia do espaço abandonado.
Escrevi o parágrafo aicma só para dar crédito histórico às multidões de clientes dos bares, que olham para fora buscando visões de ondas batendo nos rochedos. Sim, e elas têm razão em mergulhar na imaginação, porque que nem mesmo as previsões mais catastróficas de aumento do nível dos oceanos por conta do aquecimento global trarão uma tábua de marés às prainhas da Paulista. Talvez a profecia do Antônio Conselheiro fosse propícia. Porque, se o sertão virar mar e o mar virar sertão, a boca do sertão reúne credenciais para se converter em boca do mar, entrada de golfo ou baía. Aí, sim, seria possível para os bebuns trocar a miragem por uma mesa mais próxima da arrebentação.
Enquanto as profecias não se verificam, as prainhas servem como paraísos artificias para quem não pode descer ao litoral. Não poderia haver nome mais expressivo. Porque praia é um estado de espírito. É um olhar e um gesto criador. Sem muito esforço, os freqüentadores de prainha conseguem transformar o concreto em palmeira... especialmente quando estão mais altos.
Vamos nadar pela História. A colonização do Brasil começou na praia. Martim Afonso de Sousa fundou a vila de São Vicente em 1532, a primeira povoação brasileira. São Paulo de Piratininga foi criada 22 anos depois, num planalto magnífico próximo ao oceano. No início, não passava de um reduto indígena gerenciado por jesuítas. Para os padres, tratava-se do local mais aprazível do planeta – que eles conheciam bem, pois percorriam os continentes conhecidos O clima era ameno, as montanhas suaves, rios e vegetação abundantes. E ficava num ponto estratégico, entre o mar e o interior desconhecido do Brasil. Por isso, os bandeirantes apelidaram São Paulo de “a boca do sertão”. Pela boca se iniciou a exploração do interior. Isso deu ao reduto, mais tarde vila e, por fim, cidade, uma carcterística: a cabeça bifronte, contemplando a um só tempo o sertão com espírito de aventura, e o mar, com nostalgia do espaço abandonado.
Escrevi o parágrafo aicma só para dar crédito histórico às multidões de clientes dos bares, que olham para fora buscando visões de ondas batendo nos rochedos. Sim, e elas têm razão em mergulhar na imaginação, porque que nem mesmo as previsões mais catastróficas de aumento do nível dos oceanos por conta do aquecimento global trarão uma tábua de marés às prainhas da Paulista. Talvez a profecia do Antônio Conselheiro fosse propícia. Porque, se o sertão virar mar e o mar virar sertão, a boca do sertão reúne credenciais para se converter em boca do mar, entrada de golfo ou baía. Aí, sim, seria possível para os bebuns trocar a miragem por uma mesa mais próxima da arrebentação.
Enquanto as profecias não se verificam, as prainhas servem como paraísos artificias para quem não pode descer ao litoral. Não poderia haver nome mais expressivo. Porque praia é um estado de espírito. É um olhar e um gesto criador. Sem muito esforço, os freqüentadores de prainha conseguem transformar o concreto em palmeira... especialmente quando estão mais altos.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Moto-perpétuo
Eu queria nadar, correr, malhar, ler, ouvir música, namorar, beber, mas não consigo. Não posso, e não se trata de preguiça. Culpo esta vida trepidante que leva a lugar nenhum. Às vezes tenho a impressão de estar sendo puxado pelos dois braços, impelido para trás e para cima, como enganchado à fatalidade. Outras vezes a sensação é de uma reprise incansável das mesmas ações em nome do dinheiro. Trabalhar cansa, já dizia o poeta italiano Cesare Pavese. Viver esfalfa, escreveu o Conselheiro Aires.
Pensando bem, não importa o movimento que faça – se para frente, para o lado ou para trás – ou para onde me dirija, pois estou sempre aos círculos, apegado à circunvolução terrestre e ao destino de sua natureza, do ar que tenho de respirar, da água obrigado a beber.
As cidades se repetem como patos no carrossel. As populações globalizaram a tal ponto que sou incapaz de distinguir um país de outro, quase uma língua de outra. Não adianta sair da agitação de São Paulo, ir para, digamos, Londres – e lá encontrar os mesmos problemas e a mesma programaçao de cinema. Sei que por lá existe mais opção de cultura. Mas e daí, se não quero mais gastar outro dia de minha existência na National Gallery ou no Museu Britânico? Arte em excesso causa estresse.
O leitor me dirá que ainda resta a natureza como consolo e devaneio. Sim, eu sei, mas ela me leva às lágrimas. E embota os sentidos. Antigamente eu via uma árvore e isso servia para todas as outras. A regra se aplicava às praias, às montanhas e aos campos. Agora enxergo em cada uma dessas paisagens o germe de sua própria extinção. A visão embaça e fecho os olhos para não pensar mais nisso, como quando impeço que lembranças antigas e queridas me assaltem com sua tristeza parada no tempo.
Este planeta me dá claustrofobia. E pensar que o aquilo que há para além dele é pouco mais que o gelo seco de Marte, as tempestades de metano de Júpiter e Saturno, uma cratera de água rançosa no polo sul da Lua talvez... A ausência de gravidade e de oxigênio do universo me soa ainda mais angustiante que este lugar giratório e irritante que é a Terra.
Enquanto penso em tais bobagens, continuo a fazer aquilo que me sobrou e dá razão até mesmo a esta crônica. Ando por estas ruas e calçadas esburacadas atrás de um sentido para tudo, no encalço de mim mesmo escondido em algum ponto de fuga que eu possa achar na próxima esquina. Eis-me ali, tentando rir...
Pensando bem, não importa o movimento que faça – se para frente, para o lado ou para trás – ou para onde me dirija, pois estou sempre aos círculos, apegado à circunvolução terrestre e ao destino de sua natureza, do ar que tenho de respirar, da água obrigado a beber.
As cidades se repetem como patos no carrossel. As populações globalizaram a tal ponto que sou incapaz de distinguir um país de outro, quase uma língua de outra. Não adianta sair da agitação de São Paulo, ir para, digamos, Londres – e lá encontrar os mesmos problemas e a mesma programaçao de cinema. Sei que por lá existe mais opção de cultura. Mas e daí, se não quero mais gastar outro dia de minha existência na National Gallery ou no Museu Britânico? Arte em excesso causa estresse.
O leitor me dirá que ainda resta a natureza como consolo e devaneio. Sim, eu sei, mas ela me leva às lágrimas. E embota os sentidos. Antigamente eu via uma árvore e isso servia para todas as outras. A regra se aplicava às praias, às montanhas e aos campos. Agora enxergo em cada uma dessas paisagens o germe de sua própria extinção. A visão embaça e fecho os olhos para não pensar mais nisso, como quando impeço que lembranças antigas e queridas me assaltem com sua tristeza parada no tempo.
Este planeta me dá claustrofobia. E pensar que o aquilo que há para além dele é pouco mais que o gelo seco de Marte, as tempestades de metano de Júpiter e Saturno, uma cratera de água rançosa no polo sul da Lua talvez... A ausência de gravidade e de oxigênio do universo me soa ainda mais angustiante que este lugar giratório e irritante que é a Terra.
Enquanto penso em tais bobagens, continuo a fazer aquilo que me sobrou e dá razão até mesmo a esta crônica. Ando por estas ruas e calçadas esburacadas atrás de um sentido para tudo, no encalço de mim mesmo escondido em algum ponto de fuga que eu possa achar na próxima esquina. Eis-me ali, tentando rir...
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segunda-feira, 22 de junho de 2009
Encolheram o passado
Andam me chamando de saudosista por causa das reminiscências que derramo neste espaço. Onde já se viu um andarilho da cidade, atento ao trânsito, que vive de se equilibrar entre a calçada e a rua, comportar-se como um ser nostálgico, lamentando o fim de prédios, obras de arte e pessoas?
Aos críticos respondo que é isto mesmo: sinto falta de uma cidade que desaparece aos poucos, sim, e adoro lançar jeremiadas sobre o que perdi. Vivo de retratar paisagens e sentimentos atropelados pelo avanço catastrófico de um falso progresso, que devasta a natureza e derruba casas em benefício de torres apocalípticas. O resultado é a desfiguração do espaço urbano e, pior, a morte de valores humanos que até pouco trempo eram fundamentais.
A crônica, então, existe para desmascarar o presente pelo passado. O saudoso (lá venho eu de novo...) Rubem Braga foi o mestre da crônica, criador de um gênero que passou a ser seguido no Brasil. Pois o velho Braga ensinava que a nostalgia constitui o objeto da crônica. Cronista e saudosista são sinônimos.
Crônica é um fenômeno recente. Ela surgiu nos jornais no início do século XVIII na Europa. Chamava-se folhetim, espaço no qual se comentavam eventos da cidade, em especial óperas, teatro e circo. O folhetim chegou nesse formato ao Brasil em 1826. Depois derivou para a ficção, a política e o comportamento. O jovem provinciano capixaba Rubem Braga tinha quase nada à disposição. Na ausência de óperas e outros programas culturais nas cidades onde morou, teve de reinventar a crônica. Por necessidade, substituiu a crítica de eventos pelo flagrante do passado. O objeto da crônica é algo que já não está mais aqui. Crônica é a resenha do que não existe mais. A ausência que preenche uma lacuna.
O saudosismo também muda com o tempo. Machado de Assis, na maturidade, evocava sua juventude nos tempos do rei. Braga amargava a ausência de um mundo lírico do início do século XX. O cronista atual sente a nostalgia do que ocorreu há um minuto.
Por isso, os cronistas têm um passado brilhante pela frente. O ontem se afigura tão tumultuado quanto o agora – e logo o fato entra para o rol daquilo que foi urgente um dia. Então peço licença ao leitor para sentir saudade. A rua serve como palco. A vida cotidiana é o meu espetáculo, e este sempre já passou. Daí a melancolia que tinge minhas andanças/lembranças. Porque o espetáculo desta cidade é turbulento: um drama, no qual tanto o passado como o presente... encolheram!
Aos críticos respondo que é isto mesmo: sinto falta de uma cidade que desaparece aos poucos, sim, e adoro lançar jeremiadas sobre o que perdi. Vivo de retratar paisagens e sentimentos atropelados pelo avanço catastrófico de um falso progresso, que devasta a natureza e derruba casas em benefício de torres apocalípticas. O resultado é a desfiguração do espaço urbano e, pior, a morte de valores humanos que até pouco trempo eram fundamentais.
A crônica, então, existe para desmascarar o presente pelo passado. O saudoso (lá venho eu de novo...) Rubem Braga foi o mestre da crônica, criador de um gênero que passou a ser seguido no Brasil. Pois o velho Braga ensinava que a nostalgia constitui o objeto da crônica. Cronista e saudosista são sinônimos.
Crônica é um fenômeno recente. Ela surgiu nos jornais no início do século XVIII na Europa. Chamava-se folhetim, espaço no qual se comentavam eventos da cidade, em especial óperas, teatro e circo. O folhetim chegou nesse formato ao Brasil em 1826. Depois derivou para a ficção, a política e o comportamento. O jovem provinciano capixaba Rubem Braga tinha quase nada à disposição. Na ausência de óperas e outros programas culturais nas cidades onde morou, teve de reinventar a crônica. Por necessidade, substituiu a crítica de eventos pelo flagrante do passado. O objeto da crônica é algo que já não está mais aqui. Crônica é a resenha do que não existe mais. A ausência que preenche uma lacuna.
O saudosismo também muda com o tempo. Machado de Assis, na maturidade, evocava sua juventude nos tempos do rei. Braga amargava a ausência de um mundo lírico do início do século XX. O cronista atual sente a nostalgia do que ocorreu há um minuto.
Por isso, os cronistas têm um passado brilhante pela frente. O ontem se afigura tão tumultuado quanto o agora – e logo o fato entra para o rol daquilo que foi urgente um dia. Então peço licença ao leitor para sentir saudade. A rua serve como palco. A vida cotidiana é o meu espetáculo, e este sempre já passou. Daí a melancolia que tinge minhas andanças/lembranças. Porque o espetáculo desta cidade é turbulento: um drama, no qual tanto o passado como o presente... encolheram!
Como decifrar um bairro
O cronista trabalha como um construtor de diques imateriais. Em seu texto, ele quer represar a passagem do tempo, segurar uma visão e a palavra fugidia no tubilhão das metamorfoses. Com a passagem das coisas, a crônica termina por virar documento e, às vezes, com sorte, obra de arte. O sonho do cronista é, no fim, conservar fatos pela memória. Ando comparando certos lugares descritos por cronistas do passado e a situação em que esses espaços se encontram hoje. Os cenários se alteram e os textos retratam algo que já não pode ser verificado. Não vou cair em lamentos em torno da devastação da paisagem urbana. O que me interessa é descobrir restos dos que os mestres da língua retrataram nas ruínas que toda evolução urbana provoca.
Vagueei pela velha Lapa de Baixo. Passei por suas ruelas, seus muquifos e armazéns abandonados. Espiei pelas portarias de prédios prestes a ser demolidos, um deles com a placa da Escola de Datilografia Itamarati. Visitei a sede fechada há seis anos do lendário Lapeaninho, um clube de carteado. Enveredei por lojas em subsolos que um dia abrigaram bordéis e salões de sinuca.
Foi ali que João Antônio (1937-1999) ambientou suas crônicas e contos. Esse escritor nascido em Osasco passou a juventude na Lapa – e converteu o então submundo local em narrativas maravilhosas, repletas de sujeira e malandragem. É o caso do conto Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963. Conta a história de três vagabundos que vivem pela Lapa de dar golpes em salões de sinuca, tentando enganar os rivais com todo tipo de lorota e armadilha - e só se dão mal.
Talvez a Lapa de João Antônio possa ser melhor vista na sua obra literária. É resultado da filtragem imaginosa do cronista. Mas resquícios da obra do autor também se encontram na Lapa de agora. E aqui a coisa ganha curiosidade, porque ruas, prédios e objetos são de certa forma contaminados pelo texto do autor. O mundo real se enche da imaginação que lhe foi aplicada.
Não há mais aquela Lapa do início dos anos 60. Nem mesmo a sujeira é a mesma. Não há mais clube de carteado, mesmo que o jogo ainda corra às escondidas. Escolas de datilografia fecharam, mas foram substituídas pelos cursos de informática. Ainda assim, consegui entrever desvãos e quebradas em que as sombras dos personagens do escritor puderam ter se esgueirado e ainda podem passar. Sobraram o caos, um certo sofrimento do povo que se acotovela nas ruas, espera na estação de trem e bebe nos muquifos. O passeio compensou, porque li o bairro nas entrelinhas de seu ontem - e assim nasceu esta crônica.
Vagueei pela velha Lapa de Baixo. Passei por suas ruelas, seus muquifos e armazéns abandonados. Espiei pelas portarias de prédios prestes a ser demolidos, um deles com a placa da Escola de Datilografia Itamarati. Visitei a sede fechada há seis anos do lendário Lapeaninho, um clube de carteado. Enveredei por lojas em subsolos que um dia abrigaram bordéis e salões de sinuca.
Foi ali que João Antônio (1937-1999) ambientou suas crônicas e contos. Esse escritor nascido em Osasco passou a juventude na Lapa – e converteu o então submundo local em narrativas maravilhosas, repletas de sujeira e malandragem. É o caso do conto Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963. Conta a história de três vagabundos que vivem pela Lapa de dar golpes em salões de sinuca, tentando enganar os rivais com todo tipo de lorota e armadilha - e só se dão mal.
Talvez a Lapa de João Antônio possa ser melhor vista na sua obra literária. É resultado da filtragem imaginosa do cronista. Mas resquícios da obra do autor também se encontram na Lapa de agora. E aqui a coisa ganha curiosidade, porque ruas, prédios e objetos são de certa forma contaminados pelo texto do autor. O mundo real se enche da imaginação que lhe foi aplicada.
Não há mais aquela Lapa do início dos anos 60. Nem mesmo a sujeira é a mesma. Não há mais clube de carteado, mesmo que o jogo ainda corra às escondidas. Escolas de datilografia fecharam, mas foram substituídas pelos cursos de informática. Ainda assim, consegui entrever desvãos e quebradas em que as sombras dos personagens do escritor puderam ter se esgueirado e ainda podem passar. Sobraram o caos, um certo sofrimento do povo que se acotovela nas ruas, espera na estação de trem e bebe nos muquifos. O passeio compensou, porque li o bairro nas entrelinhas de seu ontem - e assim nasceu esta crônica.
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