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terça-feira, 27 de outubro de 2009

O segredo dos palestrantes

O que seria do mundo sem os palestrantes? Talvez um lugar melhor. Você já deve ter reparado como esta cidade virou alvo privilegiado deles. De epidemia nos anos 90, passou a endemia incurável.. E o assédio é de 7 dias por semana, 24 horas por dia. De repémte você está no emprego e o RH faz a convocação para todos assistirem a uma palestra sobre as lições do boto amazônico para a liderança. Abundam especialistas em generalidades as mais inimigináveis: esportistas falam das lições de vitória aplicadas ao trabalho; ex-filósofos montam cursos de treinamento para atendentes de telemarketing...
Todo acadêmico fracassado percebe que fazer palestra em empresa é lucrativo. Conheço vários gênios promissores na universidade que desistiram dos ideais para faturar alto. Não os condeno, porque a carreira universitária é mal-remunerada e frustrante, e não há boa instituição que escape da pasmaceira e da rede de inveja. Acaba sendo mais lucrativo discorrer superficialmente sobre assuntos no qual o acadêmico se aprimorou, mesmo que para uma audiênica de zé-manés. Estes formam o público-alvo dos palestrantes, já que a formação no Brasil é mais que deficiente..
Em terra de cego, palestrante é pensador. Os olhinhos brilham quando ele discorre sobre superação e cita neurolinguística, psicanálise ou uma proposição de Wittgenstein. O público se sente recompensado, mesmo que seja com vidrinhos de mais falso brilho intelectual. “Vou usar este aforismo na próxima reunião!”, pensa o gerente que assiste à apresentação.
As palestras são aulas-shows divertidas, até porque os especialistas usam datashow para projetar figurinhas e frases de efeito, em corpo bem grande, para todo mundo entender. Cada conferencista guarda o seu sistema de exibição. Há o piadista ou o que faz passos de funk para acordar a patuleia..Também tem o palestrante professoral, defendendo autoajuda como se fosse doutorado em Oxford.
Que reis do sofisma ele são. Usam exemplos para sustentar um argumento assertivo que em geral não se apoia na realidade. Os palestrantes vendem tudo como se fosse “o Segredo”: da força do pensamento positivo à Arte da Guerra de Sun Tzu, do Cristo à física quântica..
As pessoas já não creem em mais nada nem têm padrões éticos ou lógicos claros. O restulado é que viraram reféns do engano. Os palestrantes preenchem a lacuna da nossa ignorância. O problema é a superpopulação desses sábios de araque. Daqui a pouco serão tantos que vai ter gente bradando manual corporativo na rua, feito pregador de Bíblia.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Futebol e drama

Sou aquele torcedor que abaixa o som da televisão, liga o radinho e passa o fim de semana grudado nas notícias de seu time. Como palmeirense, meus últimos domingos têm sido repletos de emoções negativas: raiva, inveja, vontade de dar um coco no Marcos e um cascudo no Luxemburgo. Não vou apoiar os bárbaros que agrediram o treinador, mas consigo entendê-los. Onde já se viu jogar a toalha antes de terminar o campeonato?. E o desespero da equipe, capiteneada pelo São Marcos, o mártir, o louco? Enquanto isso, o São Paulo segue invencível e o Grêmio cola, na marcação agressiva e fria. Ficamos para trás, e lá se foi mais uma vez o meu domingo..

Por isso, prometi dar um basta ao futebol. Foi o que declarei à minha mulher à noite: “Perder mais um dia de sol, nunca mais!” Ela me olha divertida: “Você fala assim agora. Domingo que vem vai estar com o olho pregado na TV de novo”. Juro que não. Ela ri e diz que pelo menos times como o Palmeiras dão grandes emoções, diferentemente do São Paulo (é são-paulina), “que só ganha”.

Pensando bem, é isso mesmo. Há dois gêneros de time: os calculistas e os dotados de espírito trágico. O São Paulo pertence à primeira categoria. Deve seguir vencendo nos campeonatos de pontos corridos. O Palmeiras, assim como o Corinthians e a Portuguesa, comete tanto proezas como falhas épicas. Times assim lutam para fugir do rebaixamento porque amargaram na Segundona. Conhecem o drama. O tricolor permanece no alto, olímpico e indiferente aos concorrentes. Indiferente à precariedade humana, enfim.

Sou voz vencida, mas insisto em criticar o critério de pontos corridos. Ganham sempre as equipes regulares. Vejo o futebol como uma praça de touros. O sangue precisa voltar à arena. Sonho com a volta dos quadrangulares em mata-mata, a rivalidade entre torcidas, e a sorte. Talvez com o retorno do Corinthians, ano que vem, o Palmeiras recobre o seu papel. Pois não há drama sem antagonista.

Não é o caso do São Paulo. Penso nele como um Zeus de tragédia, que está matando o esporte lentamente, com o veneno da previsibilidade. Para salvar o que resta, minha sugestão é que, daqui para frente, o São Paulo receba o título de hors concours. Como o saudoso Clóvis Bornay nos concursos de fantasia. Digo sem malícia: Bornay vencia sempre, então os jurados lhe atribuíram a honraria de competir já como campeão. Que o São Paulo seja hors concours e deixe o os outros manter vivo o drama.. O futebol ficou sem graça.- exceto, obviamente, para os são-paulinos...