Esta história se passou no tempo em que o diretor deste jornal, Ricardo Anderaos, ainda era chefe de reportagem da Ilustrada. Deu-se no final de 1990, em Belém do Pará. Anderaos enviou este repórter ao Pará para uma missão curiosa: descobrir o local de origem da lambada. O ritmo fazia barulho, e só se falava nos pares sensuass ao som de Beto Barbosa (lembram?).
A investigação foi fácil. Na primeira noite eu já descobria que o ritmo vinha do Caribe. A dança, influenciada pelo lundum marajoara, era praticada nos bregas de Belém - as casas noturnas frequentadas por “gente bem” e por prostitutas. Assim, “brega” virou sinônimo de música tocada nos “bregas”. Era a canção popular romântica antes depreciada como “cafona”. O berço da lambada era o borde.l.
Casimiro, o assessor da gravadora que gravava lambada e brega, tratou de me ciceronear. Em poucas horas a pesquisa se esgotou e eu já não tinha o que fazer. Tinha de ir embora. “Não, de jeito nenhum”, disse. “Temos um pagode no sábado!” Era a festa de aniversário de um empresário local, cujo apelido era Soriano Waldick. “Ele se chama Antônio, acho”, explicou Casimiro. “Mas é o fã número 1 do Waldick Soriano – e, com o tempo, virou sósia e homônimo do Waldick.” Melhor de tudo: Soriano Waldick havia convidado Waldick Soriano para a ocasião, a se realizar numa fazenda nos arredores da cidade. “Você vai adorar a maniçoba que o Soriano vai servir na beira do igarapé!”
Claro que alterei a passagem. No sábado, lá estava eu no carro, batendo papo com o deus do brega: figura incrível, de óculos enormes e chapéu panamá. Na meia hora que durou a viagem até a fazenda, ele me contou sua vida, a infância dura na Bahia e as conquistas amorosas no Programa Sílvio Santos. E o melhor estava por vir.
Ao chegamos à sede da fazenda, deparamos com um homem sorridente e de braços abertos. Tratava-se de uma versão miniaturizada de Waldick, inclusive com o chapéu e os óculos idênticos aos do cantor. Fã e ídolo se abraçaram como irmãos, pois o Waldick já conhecia Soriano.
A tarde foi deliciosa. Não importava o calor tremendo ou as moscas que vinham beliscar a maniçoba. Naquele tempo não havia videokê. No fim da comilança, Soriano levou Waldick para um coreto à beira do rio – e ali, acompanhado de um regional, ele soltou a voz de barítono e desfilou seus sucessos: “Eu não sou cachorro não” , “Tu és meu mundo”, “Tortura de amor”. Que bela voz – e que sinceridade na interpretação! Chamado ao coreto, Soriano Waldick chorou... Não sei se está vivo. Mas tenho a impressão que ele e o ídolo formaram um dueto à beira de um igarapé no céu.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
O fascismo antifumo
ar desta cidade está cada vez mais irrespirável. É poluição e emanações pestilenciais vindas de todo os cantos. Daqui a pouco só será possível fazer minhas caminhadas com máscara de oxigênio. Agora o governador baixou a Lei Antifumo, que cria uma brigada de caça-fumantes em locais públicos fechados. Se ele pensava em acabar com a poluição ao eliminar fumaça de tabaco, enganou-se. A fumacinha dos cigarros não passa de um suspiro no cataclisma de poluição. Se o tabaco mata, há fumaças piores assassinando nosso cotidiano. A lei antifumo só presta para criar uma cortina de fumaça de celebridade para quem a baixou.
Com ou sem ela, o Apocalipse respiratório está entre nós. A pouca área verde disponível de São Paulo está sendo devastada até o último arbusto, o último pernilongo, por causa da abertura da área final do Rodoanel. Animais silvestres são mortos, casas são derrubadas e torres erguidas. Criam-se nuvens de poeira por todos os quarteirões.
O City Lapa, onde passeio, foi tombado como patrimônio, mas já é tarde. O que restou do bairro arborizado são algumas ruas cercadas de monstruosos prédios de mais de 30 andares, em empreendimentos lunáticos que vendem a área como playground e cinzeiro dos edifícios. Os novos habitantes desses prédios infestam as praças com seus cigarros, crianças, skatistas e delinquentes. As árvores “tombadas” morrem de asfixia.
Voltando ao tabaco, encontro-me no espaço ao ar livre do Kinoplex Itaim. Sinto fumantes por todo lado, esbaforidos e angustiados, com pavor de sofrer perseguições e olhares reprovadores. Não acho fumantes a melhor companhia, mas não os culpo pelo vício, nem penso que mereçam ser perseguidos como os judeus do gueto de Varsóvia. A lei antifumo tem o mesmo efeito da lei do saquinho de excrementos caninos e da lei seca: é nula. Baseada na autoridade da Medicina, ela exclui, estigmatiza e suprime a liberdade do cidadão. Tabaco agora tem status de drogra pesada. Daqui a pouco será vedado à população soltar gases – por conta do metano, altamente tóxico. Já vi o símbolo: uma bunda atravessada na diagonal por uma tarja negra. Vêm aí os caça-puns.
O governo vai pôr em ação uma divisão especial de fiscais para perseguir fumantes, multá-los e até detê-los, caso necessário. Ainda bem que este não é um país “sério” como dizia o general De Gaulle. Não há fiscal suficiente para marcação homem a homem, como agia a tropa de choque de Mussolini. O fascismo à brasileira provoca gargalhadas. No final, os cães vão continuar a sujar, os bebuns a dirigir e os fumantes a brincar de chaminés... nem que seja molhando a mão das “autoridades”.
Com ou sem ela, o Apocalipse respiratório está entre nós. A pouca área verde disponível de São Paulo está sendo devastada até o último arbusto, o último pernilongo, por causa da abertura da área final do Rodoanel. Animais silvestres são mortos, casas são derrubadas e torres erguidas. Criam-se nuvens de poeira por todos os quarteirões.
O City Lapa, onde passeio, foi tombado como patrimônio, mas já é tarde. O que restou do bairro arborizado são algumas ruas cercadas de monstruosos prédios de mais de 30 andares, em empreendimentos lunáticos que vendem a área como playground e cinzeiro dos edifícios. Os novos habitantes desses prédios infestam as praças com seus cigarros, crianças, skatistas e delinquentes. As árvores “tombadas” morrem de asfixia.
Voltando ao tabaco, encontro-me no espaço ao ar livre do Kinoplex Itaim. Sinto fumantes por todo lado, esbaforidos e angustiados, com pavor de sofrer perseguições e olhares reprovadores. Não acho fumantes a melhor companhia, mas não os culpo pelo vício, nem penso que mereçam ser perseguidos como os judeus do gueto de Varsóvia. A lei antifumo tem o mesmo efeito da lei do saquinho de excrementos caninos e da lei seca: é nula. Baseada na autoridade da Medicina, ela exclui, estigmatiza e suprime a liberdade do cidadão. Tabaco agora tem status de drogra pesada. Daqui a pouco será vedado à população soltar gases – por conta do metano, altamente tóxico. Já vi o símbolo: uma bunda atravessada na diagonal por uma tarja negra. Vêm aí os caça-puns.
O governo vai pôr em ação uma divisão especial de fiscais para perseguir fumantes, multá-los e até detê-los, caso necessário. Ainda bem que este não é um país “sério” como dizia o general De Gaulle. Não há fiscal suficiente para marcação homem a homem, como agia a tropa de choque de Mussolini. O fascismo à brasileira provoca gargalhadas. No final, os cães vão continuar a sujar, os bebuns a dirigir e os fumantes a brincar de chaminés... nem que seja molhando a mão das “autoridades”.
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Evitemos uns aos outros...
Uma hábito paulistano é praticar uma versão light do pânico social. Trata-se do pânico do outro, a mania que muitas pessoas têm de fazer tudo para evitar se encontrar por acaso com um conhecido, especialmente se faz muito tempo.
Percebi isso no sábado, quando estava numa locadora de DVD (hábito tradicional que tende a desaparecer) e divisei minha velha colega de redação no caixa, pronta para sair. Nossa, fazia uns 15 anos que não via Alice (nome fictício), e, como era uma boa colega, senti vontade de ir lhe dar um abraço e perguntar como estava. Quando fiz menção disso, ela me enxergou com o canto do olhar e deu um jeito de escapar, saindo rapidamente do recinto. Não me lembro de ter tido qualquer problema com ela. Inimigos costumam não se olhar, quando não brigar no instante em que se veem. Um dia eu perdi uma amiga quando ela me ligou, fiquei de retonar dali a 15 minutos – e só me lembrei do telefonema seis meses depois! Adivinhe se hoje eu tenho cara de falar com ela hoje?
Não era o caso de Alice. Nunca discutimos nem, a simpatia era mútua, sempre fomos companheiros de redação. Mas ela ficou com vergonha de me encontrar. Depois desses anos todos, o que dizer e como se comportar? A gente muda, fica mais velha, pode até ficar irreconhecível para os outros. Rola a saia-justa da passagem do tempo.
Ora, entendo Alice. Até porque já fiz dessas. Há não muito tempo, entrei num restaurante e, ao perceber um antigo colega, recuei para não atrapalhar a refeição dele, nem a minha, com conversas tão amenas e como constrangedoras. E não que eu não quisesse encontrá-lo. Era uma questão de timidez associada à falta de assunto e à vergonha de estar diferente em relação ao tempo em que tínhamos uma convivência diária. Algo se perde quando deixamos de bater papo com as pessoas. Perde-se o contato, e a amizade leve se torna mero embaraço. .
Por que a cena se repete tanto nesta cidade? Penso que o fenômeno se deve ao isolamento das pesssoas em seu ambiente de trabalho. Infelizmente, é no trabalho que tudo acontece, de amizades a tremendos arranca-rabos. A fixação no trabaho faz com que a maioria se aliene dos outros, perca os rastros e adquira um medo ancestral de lidar com o passado, suas velhas relações e, portanto, de lidar consigo mesmo. À medida que amadurecemos, vamos perdendo os amigos pelo caminho e deixamos de manter contato, salvo por meio dos sites de relacionamentos, que pasteurizaram a sensação de perda e venceram o bloqueio dos reencontros. Quem sabe num deles eu reencontre Alice e tente conversar. Em carne e osso é mais difícil.
Percebi isso no sábado, quando estava numa locadora de DVD (hábito tradicional que tende a desaparecer) e divisei minha velha colega de redação no caixa, pronta para sair. Nossa, fazia uns 15 anos que não via Alice (nome fictício), e, como era uma boa colega, senti vontade de ir lhe dar um abraço e perguntar como estava. Quando fiz menção disso, ela me enxergou com o canto do olhar e deu um jeito de escapar, saindo rapidamente do recinto. Não me lembro de ter tido qualquer problema com ela. Inimigos costumam não se olhar, quando não brigar no instante em que se veem. Um dia eu perdi uma amiga quando ela me ligou, fiquei de retonar dali a 15 minutos – e só me lembrei do telefonema seis meses depois! Adivinhe se hoje eu tenho cara de falar com ela hoje?
Não era o caso de Alice. Nunca discutimos nem, a simpatia era mútua, sempre fomos companheiros de redação. Mas ela ficou com vergonha de me encontrar. Depois desses anos todos, o que dizer e como se comportar? A gente muda, fica mais velha, pode até ficar irreconhecível para os outros. Rola a saia-justa da passagem do tempo.
Ora, entendo Alice. Até porque já fiz dessas. Há não muito tempo, entrei num restaurante e, ao perceber um antigo colega, recuei para não atrapalhar a refeição dele, nem a minha, com conversas tão amenas e como constrangedoras. E não que eu não quisesse encontrá-lo. Era uma questão de timidez associada à falta de assunto e à vergonha de estar diferente em relação ao tempo em que tínhamos uma convivência diária. Algo se perde quando deixamos de bater papo com as pessoas. Perde-se o contato, e a amizade leve se torna mero embaraço. .
Por que a cena se repete tanto nesta cidade? Penso que o fenômeno se deve ao isolamento das pesssoas em seu ambiente de trabalho. Infelizmente, é no trabalho que tudo acontece, de amizades a tremendos arranca-rabos. A fixação no trabaho faz com que a maioria se aliene dos outros, perca os rastros e adquira um medo ancestral de lidar com o passado, suas velhas relações e, portanto, de lidar consigo mesmo. À medida que amadurecemos, vamos perdendo os amigos pelo caminho e deixamos de manter contato, salvo por meio dos sites de relacionamentos, que pasteurizaram a sensação de perda e venceram o bloqueio dos reencontros. Quem sabe num deles eu reencontre Alice e tente conversar. Em carne e osso é mais difícil.
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Bafômetro e liberdade
Fui a uma cantina do Bexiga no sábado à noite e fiquei pela primeira vez em dúvida sobre mudar um velho hábito: escolher um vinho para acompanhar a pizza. Ora, esse não era e nem deveria ser um tema para discussões metafísicas ou dilemas morais. Mas a nova Lei Seca me fez pensar um pouco. Só um pouco.
Meu problema não era culpa, mas a possibilidade de ser surpreendido por policiais munidos de bafômetro quando eu estivesse ao volante. E lá estava eu, praticando uma horrível transgressão, diante do olhar severo de minhas filhas. Garçom, que venha o cabernet sauvignon! E aqui faço a confissão do crime: sim, depois de duas taças de vinho e uma margherita, dirigi o carro até minha casa, arriscando o meu pescoço e o de minha família numa noite fria de fim de semana. Não, não adiantaria dizer eu não estava embriagado nem tonto. Eu seria detido!
Vou poupar meu querido leitor de uma aula sobre conduta civil e suas relações com a sobriedade à direção. Também não farei o elogio à contravenção. Não se trata disso. O fato irritante de toda a história de bafômetro no nosso pescoço está no chatérrimo clamor público em torno do assunto. Essas leis tendem a redundar em histeria coletiva - e o resultado é a perda progressiva de direitos mínimos. O cidadão que bebe e comete um acidente não teria já uma pena adequada com a legislação existente? Será que é preciso impor outro pacote de penalidades e submeter os motoristas à humilhação de um teste?
Pergunto isso porque a polícia não é lá grande modelo de conduta. Quantas vezes não vi nossos agentes da lei bebendo alegremente em padarias e bares nas tardinhas de sexta-feira... Agora aboliram a happy hour. Enfim, penso que, se a gente passasse a aplicar o bafômetro nos policiais ou nos funcionários do Detran, talvez não sobrasse ninguém para controlar o insidioso aparelhinho. Estaríamos todos vendo o sol quadrado.
E assim caminha a legislação. Os fumantes, coitados, foram banidos de todos os cantos. Chegou a vez dos bebuns. Daqui a pouco virá uma extensão da Lei Seca para os pedestres. Tenho certeza de que a arrecadação de multas vai aumentar bastante. Animada com os lucros, a polícia poderá inventar um aparelho controlar nossas boas intenções no trânsito, uma espécie de "mentirômetro" para aplicação indolor e imediata. Caso o indivíduo seja assombrado por algum pensamento ruim, ele será imediatamente recolhido ao xilindró.
Enquanto meu vaticínio não se cumpre, proponho um brinde à saúde de nossas instituições - e à nossa liberdade. Garçom, um pro secco, por favor. Depois eu peço uma carona.
Meu problema não era culpa, mas a possibilidade de ser surpreendido por policiais munidos de bafômetro quando eu estivesse ao volante. E lá estava eu, praticando uma horrível transgressão, diante do olhar severo de minhas filhas. Garçom, que venha o cabernet sauvignon! E aqui faço a confissão do crime: sim, depois de duas taças de vinho e uma margherita, dirigi o carro até minha casa, arriscando o meu pescoço e o de minha família numa noite fria de fim de semana. Não, não adiantaria dizer eu não estava embriagado nem tonto. Eu seria detido!
Vou poupar meu querido leitor de uma aula sobre conduta civil e suas relações com a sobriedade à direção. Também não farei o elogio à contravenção. Não se trata disso. O fato irritante de toda a história de bafômetro no nosso pescoço está no chatérrimo clamor público em torno do assunto. Essas leis tendem a redundar em histeria coletiva - e o resultado é a perda progressiva de direitos mínimos. O cidadão que bebe e comete um acidente não teria já uma pena adequada com a legislação existente? Será que é preciso impor outro pacote de penalidades e submeter os motoristas à humilhação de um teste?
Pergunto isso porque a polícia não é lá grande modelo de conduta. Quantas vezes não vi nossos agentes da lei bebendo alegremente em padarias e bares nas tardinhas de sexta-feira... Agora aboliram a happy hour. Enfim, penso que, se a gente passasse a aplicar o bafômetro nos policiais ou nos funcionários do Detran, talvez não sobrasse ninguém para controlar o insidioso aparelhinho. Estaríamos todos vendo o sol quadrado.
E assim caminha a legislação. Os fumantes, coitados, foram banidos de todos os cantos. Chegou a vez dos bebuns. Daqui a pouco virá uma extensão da Lei Seca para os pedestres. Tenho certeza de que a arrecadação de multas vai aumentar bastante. Animada com os lucros, a polícia poderá inventar um aparelho controlar nossas boas intenções no trânsito, uma espécie de "mentirômetro" para aplicação indolor e imediata. Caso o indivíduo seja assombrado por algum pensamento ruim, ele será imediatamente recolhido ao xilindró.
Enquanto meu vaticínio não se cumpre, proponho um brinde à saúde de nossas instituições - e à nossa liberdade. Garçom, um pro secco, por favor. Depois eu peço uma carona.
O senhor Trema
Ele veio me visitar sem aviso. O senhor Trema não observa a etiqueta atual. Ele vem daquele tempo em que as casas não tinham muros e não havia carros. Pela primeira vez, aquela criatura tão simpáticca me pareceu alquebrada. Seus olhos negros estavam muito tristes. Posso dizer que ele era todo feito de tristeza. Mesmo porque seu ser se resume a dois pontos negros pairando sobre as letras, sobre o mundo. Agora ele estava pairando sobre o sofá da sala, enobrecendo o móvel, assim como ele enobrecia as palavras que costumava acompanhar freqüentemente, e ainda acompanha, até janeiro do ano que vem.
“Meu fim está próximo, meu amigo”, supirou, segurando um choro. “O Lula já assinou o decreto que me extingue da língua portuguesa...”
Tentei acalmá-lo com uma xícara de chá verde. Notei que ele fingiu que gostou, mas chá verde não faz parte de seu código de gentilezas. Teria preferido o breakfast tea à inglesa, servido na chávena...
“Eu fiquei sabendo”, respondi. “Lamento muito. Sempre gostei de você. Mas não há de ser nada, você continua no finlandês, no húngaro e no alemão!”
Que afirmação desastrada, delinqüescente, o pobre senhor Trema se desfez em prantos - como ele diria. Não agüentou segurar a emoção.
Abracei-o, para abafar o choro. Desde que me entendo por alfabetizado, ele me acompanha. Sua presença é eloqüente na minha vida de escrevinhador. Quantas vezes não recorri ao snhor Trema, em crõnicas, contos, reportagens, romances, ensaios? Ele nunca foi apenas um sinal diacrítico, usado para modificar a pronúncia do “u”. Ele foi importante na existência de pessoas que já não estão entre nós. O presidente JK assinou o famoso plano qüinqüenal para o Brasil, aquele que faria um atalho de cinqüenta anos em cinco. E quando eu completar cinqüenta anos, serei obrigado a comemorar “cinquenta”. Essa possibildade de um aniversário sem a graça do trema me deixa qüinqüenérveo...
“Não me conformo”, prossseguiu meu amigo, secando as lágrimas. “Não bastaram os portugueses terem me expulsado no pós-guerra, agora todos os países lusófonos me repudiam. É uma injustiça. Enquanto isso, o “cá”, o dabliú e o ípsilon estão sendo recepcionados de volta ao abecê com honras de estadistas! Você acha que eu mereço essa humilhação?”
“Claro que não, meu amigo. Tome mais um pouco de chá, acalme-se. Eu prometo usar você para sempre, na vida privada e na pública. Mesmo que os textos que eu venha a escrever sejam corrigidos, você vai estar lá, em ausência!”
É claro que isso não serviu de consolo, mas ele esboçou um sorriso cordial, já que senhor Trema é um sinal diacrítico muito educado.
“A gente se vê por aí”, disse ele, enquanto cruzava o portão da minha casa. E me fitou com os olhos negros, numa expressão irônica. “Quando você vai voltar a estudar alemão?”
“Meu fim está próximo, meu amigo”, supirou, segurando um choro. “O Lula já assinou o decreto que me extingue da língua portuguesa...”
Tentei acalmá-lo com uma xícara de chá verde. Notei que ele fingiu que gostou, mas chá verde não faz parte de seu código de gentilezas. Teria preferido o breakfast tea à inglesa, servido na chávena...
“Eu fiquei sabendo”, respondi. “Lamento muito. Sempre gostei de você. Mas não há de ser nada, você continua no finlandês, no húngaro e no alemão!”
Que afirmação desastrada, delinqüescente, o pobre senhor Trema se desfez em prantos - como ele diria. Não agüentou segurar a emoção.
Abracei-o, para abafar o choro. Desde que me entendo por alfabetizado, ele me acompanha. Sua presença é eloqüente na minha vida de escrevinhador. Quantas vezes não recorri ao snhor Trema, em crõnicas, contos, reportagens, romances, ensaios? Ele nunca foi apenas um sinal diacrítico, usado para modificar a pronúncia do “u”. Ele foi importante na existência de pessoas que já não estão entre nós. O presidente JK assinou o famoso plano qüinqüenal para o Brasil, aquele que faria um atalho de cinqüenta anos em cinco. E quando eu completar cinqüenta anos, serei obrigado a comemorar “cinquenta”. Essa possibildade de um aniversário sem a graça do trema me deixa qüinqüenérveo...
“Não me conformo”, prossseguiu meu amigo, secando as lágrimas. “Não bastaram os portugueses terem me expulsado no pós-guerra, agora todos os países lusófonos me repudiam. É uma injustiça. Enquanto isso, o “cá”, o dabliú e o ípsilon estão sendo recepcionados de volta ao abecê com honras de estadistas! Você acha que eu mereço essa humilhação?”
“Claro que não, meu amigo. Tome mais um pouco de chá, acalme-se. Eu prometo usar você para sempre, na vida privada e na pública. Mesmo que os textos que eu venha a escrever sejam corrigidos, você vai estar lá, em ausência!”
É claro que isso não serviu de consolo, mas ele esboçou um sorriso cordial, já que senhor Trema é um sinal diacrítico muito educado.
“A gente se vê por aí”, disse ele, enquanto cruzava o portão da minha casa. E me fitou com os olhos negros, numa expressão irônica. “Quando você vai voltar a estudar alemão?”
Padrinhos, cuidado!
É um absurdo. Fui convidado para ser padrinho de casamento. Aparentemente, trata-se de um compromisso dos mais singelos. O padrinho deve comprar um presente e se colocar em posição de sentido no altar. O único privilégio da função é ter um close-up do beijo do casal, além do direito ao banquete - caso haja, pois hoje o padrão é self-service e todo mundo comendo de pé com prato de plástico, antes do pagode eletrônico.
Eu pensava assim até o mês passado, quando me fizeram o convite. Descobri então um mundo novo de obrigações sociais e me tornei presa das mais variadas armadilhas. A começar pelo presente. Hoje está tudo mudado: os noivos querem os presentes mais exorbitantes. Eles “postam” no blog do casal uma lista de presentes, os mais caros do mercado. As lojas indicadas também já estão preparadas para a punhalada. São eletrodomésticos, móveis e outras engenhocas de última geração, a preços nada convidativos. E ai do padrinho se não comprar o melhor item da loja mais cara.
E isso não é tudo. O padrinho é forçado a fazer uma porção de coisas para as quais ele não está preparado. A pior é a roupa. Atualmente não basta você vestir seu melhor terno e se dirigir ao altar. Não. Em nome do sagrado sacramento, o padrinho cai numa arapuca dos diabos.
Os noivos já pensaram em tudo, até nos trajes. Eles me informaram que eu tinha de “tirar as medidas do terno” em uma loja de aluguel de roupas no Tatuapé , do outro lado da cidade! E mais: todos os padrinhos teriam de vestir o mesmo modelo de terno e gravata. O plano era coreografar no altar uma dúzia de padrinhos e suas respectivas mulheres (com longos em cores predeterminadas), fazendo o chorus line para a féerie de um casamento no Belenzinho! De jeito nenhum.
A noiva me ligou suplicando que eu não podia falhar. Engoli em seco e fui ao tal lugar. Estava lotado de padrinhos, vítimas como eu. Provei o terno horrendo – e me prometeram uma gravata acetinada, que não vi. Os noivos só não me contaram que eu teria de voltar lá para apanhar a roupa dois dias antes, pois até então seria usada por outro freguês. E não me avisaram que tudo isso custaria a bagatela de 150 reais, preço de um terno novinho em folha e comprado.
Caí na indústria do casamento. Vendo minha expressão, o alfaiate tratou de me consolar. Além de gastar os tubos, pagar o mico de me vestir como num coro de musical, tive de escutar esta: “O senhor está praticando uma boa ação, pois o noivo ganha o aluguel do fraque de brinde!” Hoje, o padrinho virou o melhor dos presentes de casamento: ele paga pelo show, dança e ainda provoca risos nos convidados.
Eu pensava assim até o mês passado, quando me fizeram o convite. Descobri então um mundo novo de obrigações sociais e me tornei presa das mais variadas armadilhas. A começar pelo presente. Hoje está tudo mudado: os noivos querem os presentes mais exorbitantes. Eles “postam” no blog do casal uma lista de presentes, os mais caros do mercado. As lojas indicadas também já estão preparadas para a punhalada. São eletrodomésticos, móveis e outras engenhocas de última geração, a preços nada convidativos. E ai do padrinho se não comprar o melhor item da loja mais cara.
E isso não é tudo. O padrinho é forçado a fazer uma porção de coisas para as quais ele não está preparado. A pior é a roupa. Atualmente não basta você vestir seu melhor terno e se dirigir ao altar. Não. Em nome do sagrado sacramento, o padrinho cai numa arapuca dos diabos.
Os noivos já pensaram em tudo, até nos trajes. Eles me informaram que eu tinha de “tirar as medidas do terno” em uma loja de aluguel de roupas no Tatuapé , do outro lado da cidade! E mais: todos os padrinhos teriam de vestir o mesmo modelo de terno e gravata. O plano era coreografar no altar uma dúzia de padrinhos e suas respectivas mulheres (com longos em cores predeterminadas), fazendo o chorus line para a féerie de um casamento no Belenzinho! De jeito nenhum.
A noiva me ligou suplicando que eu não podia falhar. Engoli em seco e fui ao tal lugar. Estava lotado de padrinhos, vítimas como eu. Provei o terno horrendo – e me prometeram uma gravata acetinada, que não vi. Os noivos só não me contaram que eu teria de voltar lá para apanhar a roupa dois dias antes, pois até então seria usada por outro freguês. E não me avisaram que tudo isso custaria a bagatela de 150 reais, preço de um terno novinho em folha e comprado.
Caí na indústria do casamento. Vendo minha expressão, o alfaiate tratou de me consolar. Além de gastar os tubos, pagar o mico de me vestir como num coro de musical, tive de escutar esta: “O senhor está praticando uma boa ação, pois o noivo ganha o aluguel do fraque de brinde!” Hoje, o padrinho virou o melhor dos presentes de casamento: ele paga pelo show, dança e ainda provoca risos nos convidados.
Meu mundo caiu
Tarde dessas eu estava numa seção de discos clássicos de uma grande loja quando me dei conta de que me encontrava inteiramente sozinho. O DVD de um recital magnífico do violonista André Geraissati passava na tela de plasma, sem que houvesse vivalma na poltrona diante do aparelho. Eu gostaria de ver o produto, saber o preço etc. Mas cadê o vendedor, o atendente ou que nome leve o funcionário que deveria estar ali, se não ouvindo o freguês, pelo menos a tomar conta do local?
O setor de clássicos sempre foi o mais seleto e isolado. Mas nunca assim. Nem o mestre Geraissati se acomodava antes na prateleira erudita – sua música vai além de qualquer rótulo. Saí ao encalço de um ser pensante, mas, à medida que percorria as gôndolas, notei que não havia ninguém, salvo gatos pingados que ouviam o novo CD da banda Coldplay (que saiu antes na internet). Fui reclamar à moça do caixa. Depois de um muxoxo, ela chamou o gerente pelo telefone. O sujeito surgiu esbaforido. Quando lhe falei do DVD, arregalou os olhos e saiu atrás do produto como se brincasse de cabra-cega. Demorou um tempão, mas conseguiu descobrir o disco. Acabei comprando o Geraissati e o Coldplay. Mas não saí satisfeito.
Concluí o óbvio: lojas de discos não existem mais. Os clássicos estão sendo liquidados como tomate na xepa da feira. Numa cidade enorme como esta, um amigo e eu somos os únicos a ainda comprar sonhados álbuns, antes tão caros. Eu sei porque ele comprou outro dia uma caixa de sonatas de Beethoven pelo Arthur Schnabel que eu queria ter comprado. Aí ele me deu a dica de que havia uma igual numa das filiais da loja. Temos trocado idéias como se fôssemos os últimos audiófilos sobre a Terra da Garoa.
Não existem mais amantes da música, nem alma nesse negócio. No mundo todo, as grandes cadeias de discos estão fechando. A Tower Records e a Virgin saíram de cena nos Estados Unidos. Em cidades como Miami, restou uma única cadeia, a Fye, que mesmo assim empurra os discos cada vez mais para o fundo, em nome do destaque para games e filmes em blu-ray. Em São Paulo, sobraram seções de discos nas livrarias e em lojas de alta tecnologia. Há os sebos, mas estes não se comparam aos do passado. Recendem a mesquinhez, com seus donos sem trato nem cultura...
Disco e inteligência parecem ter se divorciado irremediavelmente. E assim descobri que meu mundo não existe mais. Deixe estar: tenho reservas de som suficientes para passar bem o resto da vida. Só tenho pena de quem não pode mais desfrutar de uma conversa com o gerente cultivado das lojas de discos de antanho.
O setor de clássicos sempre foi o mais seleto e isolado. Mas nunca assim. Nem o mestre Geraissati se acomodava antes na prateleira erudita – sua música vai além de qualquer rótulo. Saí ao encalço de um ser pensante, mas, à medida que percorria as gôndolas, notei que não havia ninguém, salvo gatos pingados que ouviam o novo CD da banda Coldplay (que saiu antes na internet). Fui reclamar à moça do caixa. Depois de um muxoxo, ela chamou o gerente pelo telefone. O sujeito surgiu esbaforido. Quando lhe falei do DVD, arregalou os olhos e saiu atrás do produto como se brincasse de cabra-cega. Demorou um tempão, mas conseguiu descobrir o disco. Acabei comprando o Geraissati e o Coldplay. Mas não saí satisfeito.
Concluí o óbvio: lojas de discos não existem mais. Os clássicos estão sendo liquidados como tomate na xepa da feira. Numa cidade enorme como esta, um amigo e eu somos os únicos a ainda comprar sonhados álbuns, antes tão caros. Eu sei porque ele comprou outro dia uma caixa de sonatas de Beethoven pelo Arthur Schnabel que eu queria ter comprado. Aí ele me deu a dica de que havia uma igual numa das filiais da loja. Temos trocado idéias como se fôssemos os últimos audiófilos sobre a Terra da Garoa.
Não existem mais amantes da música, nem alma nesse negócio. No mundo todo, as grandes cadeias de discos estão fechando. A Tower Records e a Virgin saíram de cena nos Estados Unidos. Em cidades como Miami, restou uma única cadeia, a Fye, que mesmo assim empurra os discos cada vez mais para o fundo, em nome do destaque para games e filmes em blu-ray. Em São Paulo, sobraram seções de discos nas livrarias e em lojas de alta tecnologia. Há os sebos, mas estes não se comparam aos do passado. Recendem a mesquinhez, com seus donos sem trato nem cultura...
Disco e inteligência parecem ter se divorciado irremediavelmente. E assim descobri que meu mundo não existe mais. Deixe estar: tenho reservas de som suficientes para passar bem o resto da vida. Só tenho pena de quem não pode mais desfrutar de uma conversa com o gerente cultivado das lojas de discos de antanho.
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