Vou contar minha experiência olfativa e sensorial durante a 5ª Virada Cultural no fim de semana passado. A prefeitura avalia que quatro milhões de cidadãos encheram as ruas para participar de 800 eventos. Eu não passava de um entre os milhões na madrugada de domingo no centrão. O passeio pelos shows da Sé, Luz, Largo de São Francisco, República e Anhangabaú valeu a pena para conhecer os intestinos, os rins e os dejetos em geral da cidade.
Os shows disponíveis eram a céu aberto. Os de teatro estavam lotados, a maior parte dos convites distribuídas para vips e convidados do executivo e das assessorias. Fiquei na fila do Municipal uma hora antes do melhor show, mas não consegui nada, como a maioria. Então tive de perambular pelos palcos espalhados em vários logradouros em busca de algo para ver. Eram shows de música popular, dança e balada eletrônica em geral ruins e descuidados. O público dispersava , sem prestar atenção a nada.
Não havia infra-estrutura, iluminação e segurança suficientes para conter as multidões. E o resultado foi a selvageria total. As estações de metrô entraram em colapso, fecharam e houve tumulto. Pessoas se empurravam e brigavam. Lá fora, um pandemônio.. São Paulo lembrava o carnaval de Porto Príncipe, a capital do Haiti. Hordas de bêbados e drogados andavam pelas calçadas, ameaçando os sóbrios com palavrões e berros. Sem banheiros suficentes, rapazes se aliviaram com o maior descaramento, à vista dos passantes. Não se cansavam nem em se virar para os muros ou árvores; postavam-se de frente para a rua, para ultrajar quem passava. Uma cena simbólica: ao som de reggae, três brutamontes faziam xixi juntos na Ladeira da Memória, um dos monumentos fundadores da cidade, despoliciado. Será que estavam tão apertados assim ou era falta de vergonha?
Sujeira por todo lado. Quem não olhasse para o chão, pisava em churume e excrementos das mais diversas modalidades e origens. As ruas eram tão escuras que só era possível perceber o mau-cheiro e o grito dos guardadores de carros. Mendigos se aproximavam dos carros e dos passantes, provocando sustos. Fiquei com pena mesmo dos moradores de rua da Praça da Sé. Eram os mais irritados. Aí pela 1 hora da manhã, eles se encostavam às portas de ferro fechadas das lojas para se abrigar do frio – e tentar fugir da música bate-estaca que ribombava ali perto.
A Virada foi um megafestival de lixo, miséria e falta de decoro. O governo diz que o “povo” adorou. É um insulto. Se este é o tipo de cultura que o município tem a oferecer, então só me resta tapar o nariz e, da próxima vez, manter distância.
domingo, 22 de março de 2009
O fim das bibliotecas municipais
Nostalgia é o oitavo pecado capital destes tempos. Incorro nela de quando em vez, e sinto o olhar reprovador de quem está por perto e nota a infração. Confesso que, num desses acessos de nostalgia, cometi o crime de visitar a biblioteca pública do meu bairro. Cheguei de mansinho, talvez pensando em reencontrar nas prateleiras os livros que mais me influenciaram e emocionaram. Encontrei racks de metal com volumes empoeirados à espera de um leitor que nunca mais apareceu. O lugar estava oco. A bibliotecária me atendeu com aquela suave descortesia paulistana, como se o visitante fosse um intruso a ser tolerado, mas não absolvido. Eu me senti uma assombração do passado a importunar a ordem do agora.
“Procuro uma coletânea de contos fantásitcos do Aluísio Azevedo”, disse à senhora. “O senhor trouxe a referência?” Não. “Por que não consultou o catálogo pela internet?” Sei lá por quê, eu só queria parar e ler uns livros difíceis de encontrar e talvez levar emprestados... “Os empréstimos são limitados a quatro volumes e a devolução acontece em 15 dias”, ela metralhou, com os olhos pregados no monitor velho e encardido. Por fim, informou que não tinha o livro que eu buscava. Virei as costas, imaginando o alívio da funcionária em me ver ir embora. Agora ela podia voltar a sua preguiçosa solidão.
Em tempos idos, eu encontrava nas bibliotecas públicas um abrigo para meditar, planejar e fugir do mundo. Passeava pelas estantes como quem viajasse por outros mundos, tempos e realidades, memórias, histórias, uma lição de vida aqui, uma descoberta da crueldade humana ali, fantasias inúteis acolá. Devo às bibliotecas a minha formação. Fiz mestrado e doutorado passando tardes enfurnado na Mário de Andrade e no Arquivo do Estado. Anos atrás, as bibliotecas de bairro eram cheias. Os usuários se interessavam por cultura, e não apenas como uma ferramenta para subir na vida. Havia oficinas e debates. Os livros de poesia e os romances não paravam nas prateleiras. Agora os ácaros venceram os leitores.
Saí da biblioteca e me dirigi a uma lan house repleta de moleques e adultos, absortos em pesquisar, mandar emails etc. Pela internet, encontrei O touro negro, de Aluísio Azevedo, disponível em arquivo digital. E pensei: perto de uma lan house imunda como aquela, as poeirentas bibliotecas municipais lembram santuários abandonados. Não espanta que a prefeitura queira fechá-las. Elas não servem mais a ninguém. Nem mesmo a mim, que sempre as amei.
“Procuro uma coletânea de contos fantásitcos do Aluísio Azevedo”, disse à senhora. “O senhor trouxe a referência?” Não. “Por que não consultou o catálogo pela internet?” Sei lá por quê, eu só queria parar e ler uns livros difíceis de encontrar e talvez levar emprestados... “Os empréstimos são limitados a quatro volumes e a devolução acontece em 15 dias”, ela metralhou, com os olhos pregados no monitor velho e encardido. Por fim, informou que não tinha o livro que eu buscava. Virei as costas, imaginando o alívio da funcionária em me ver ir embora. Agora ela podia voltar a sua preguiçosa solidão.
Em tempos idos, eu encontrava nas bibliotecas públicas um abrigo para meditar, planejar e fugir do mundo. Passeava pelas estantes como quem viajasse por outros mundos, tempos e realidades, memórias, histórias, uma lição de vida aqui, uma descoberta da crueldade humana ali, fantasias inúteis acolá. Devo às bibliotecas a minha formação. Fiz mestrado e doutorado passando tardes enfurnado na Mário de Andrade e no Arquivo do Estado. Anos atrás, as bibliotecas de bairro eram cheias. Os usuários se interessavam por cultura, e não apenas como uma ferramenta para subir na vida. Havia oficinas e debates. Os livros de poesia e os romances não paravam nas prateleiras. Agora os ácaros venceram os leitores.
Saí da biblioteca e me dirigi a uma lan house repleta de moleques e adultos, absortos em pesquisar, mandar emails etc. Pela internet, encontrei O touro negro, de Aluísio Azevedo, disponível em arquivo digital. E pensei: perto de uma lan house imunda como aquela, as poeirentas bibliotecas municipais lembram santuários abandonados. Não espanta que a prefeitura queira fechá-las. Elas não servem mais a ninguém. Nem mesmo a mim, que sempre as amei.
O passante que passa
A vida social a céu aberto está em extinção. Não exagero, porque numa megalópole como São Paulo a convívio, o espaço em que as pessoas se relacionam, já não se dá nas ruas.
Devo ser um dos últimos “flâneurs” desta cidade. Essa palavra francesa (“flâneur”) foi usada para designar o passeante, o sujeito do século XIX que andava com vagar, a observar a tipos urbanos, encantado pelas vitrines das lojas e engolfado pela multidão emergente. O surgimento de hábitos diferentes nas grandes cidades eletrizou escritores como Edgar Allan Poe em Nova York, Charles Baudelaire em Paris e até José de Alencar no Rio de Janeiro do Segundo Império. Nestes passeios meio cambaleantes pela guia das ruas, tento imitar os mestres e retratar São Paulo. Em geral, dou com os burros n’água.
Não há mais espaço civilizado para quem passeia nas ruas, ao menos por aqui. Em minhas excursões, tenho tropeçado nas calçadas, escorregado em lixo e visto coisas de dar dó ou medo. Caminhar a céu aberto virou ousadia. Os parques, por exemplo, viraram palcos de shos de malhação. Nos parques do Ibirapuera e Villa-Lobos, observo a ânsia lunática pelo desempenho atlético. Todo mundo corre, joga, sua, faz flexões, a pé, de bicicleta, patim ou patinete. Até os velhinhos trocaram o papo e a leitura do banco da praça pelo alongamento ou a fisioterapia. Todo mundo tem de ser saudável e belo. Que chatice!
Cansei de cruzar com gente musculosa de todas as idades e seus cães de raça. Nas ruas não há com quem puxar assunto. Já que não existe literalmente nada de novo sob o sol, tenho alterado meu trajeto tentado examinar os novos costumes nos locais em que a vida foi parar: lá dentro, nos shopping-centers. Posso dizer que há algo de novo sob a luz fluorescente: modas diferentes, gente que conversa, troca idéias e “fica”... sempre às pressas. É aos shoppings que se dirigem as multidões quando desejam se divertir. Elas têm necessidade de proteção, como um teto, um ar-condicionado e um monte de lojas, cinemas, cafés e restaurantes. Querem estar abrigadas no aconchego do consumo total. Alguém falou em cultura? Sinal dos tempos: os museus estão vazios, ao passo que as galerias dos shopping nunca estiveram tão lotadas.
O que um sujeito que gosta de caminhar e observar pode fazer? Circular por esses túneis de consumismo, contemplar as novas modalidades de beleza, os produtos e padrões de comportamento, ouvir o que e como falam. Passear pela velocidade, ver o efêmero escoar sem conseguir formular idéias. O “flâneur” de hoje se move dentro de infinitas paredes iluminadas. É ele próprio uma rápida passagem pelos eventos. Diferente de seus antecessores deslumbrados, ele se surpeende com o próprio desencanto diante do novo.
Devo ser um dos últimos “flâneurs” desta cidade. Essa palavra francesa (“flâneur”) foi usada para designar o passeante, o sujeito do século XIX que andava com vagar, a observar a tipos urbanos, encantado pelas vitrines das lojas e engolfado pela multidão emergente. O surgimento de hábitos diferentes nas grandes cidades eletrizou escritores como Edgar Allan Poe em Nova York, Charles Baudelaire em Paris e até José de Alencar no Rio de Janeiro do Segundo Império. Nestes passeios meio cambaleantes pela guia das ruas, tento imitar os mestres e retratar São Paulo. Em geral, dou com os burros n’água.
Não há mais espaço civilizado para quem passeia nas ruas, ao menos por aqui. Em minhas excursões, tenho tropeçado nas calçadas, escorregado em lixo e visto coisas de dar dó ou medo. Caminhar a céu aberto virou ousadia. Os parques, por exemplo, viraram palcos de shos de malhação. Nos parques do Ibirapuera e Villa-Lobos, observo a ânsia lunática pelo desempenho atlético. Todo mundo corre, joga, sua, faz flexões, a pé, de bicicleta, patim ou patinete. Até os velhinhos trocaram o papo e a leitura do banco da praça pelo alongamento ou a fisioterapia. Todo mundo tem de ser saudável e belo. Que chatice!
Cansei de cruzar com gente musculosa de todas as idades e seus cães de raça. Nas ruas não há com quem puxar assunto. Já que não existe literalmente nada de novo sob o sol, tenho alterado meu trajeto tentado examinar os novos costumes nos locais em que a vida foi parar: lá dentro, nos shopping-centers. Posso dizer que há algo de novo sob a luz fluorescente: modas diferentes, gente que conversa, troca idéias e “fica”... sempre às pressas. É aos shoppings que se dirigem as multidões quando desejam se divertir. Elas têm necessidade de proteção, como um teto, um ar-condicionado e um monte de lojas, cinemas, cafés e restaurantes. Querem estar abrigadas no aconchego do consumo total. Alguém falou em cultura? Sinal dos tempos: os museus estão vazios, ao passo que as galerias dos shopping nunca estiveram tão lotadas.
O que um sujeito que gosta de caminhar e observar pode fazer? Circular por esses túneis de consumismo, contemplar as novas modalidades de beleza, os produtos e padrões de comportamento, ouvir o que e como falam. Passear pela velocidade, ver o efêmero escoar sem conseguir formular idéias. O “flâneur” de hoje se move dentro de infinitas paredes iluminadas. É ele próprio uma rápida passagem pelos eventos. Diferente de seus antecessores deslumbrados, ele se surpeende com o próprio desencanto diante do novo.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Pets e viralatas
Por onde passo, vejo cães adultos e filhotes das raças mais variadas. Eles estão nos best-sellers. Dou um pulo na livraria e ei-los na lista de livros mais vendidos. Três títulos em torno de cães estão entre os dez mais: Marley e Eu, sobre a relação delicada entre um dono e mascote; De Bagdá, com Muito Amor – sobre Lava, o filhote resgatado que trocou o Iraque pela Califórnia; e O Encantador de Cães, autobiografia de um adestrador de cachorros de estirpe.
No shopping center, são vendidos na vitrina, umas fofuras a peso de ouro. Mesmo num parque, no domingo passado, gastei parte de meu tempo admirando animaizinhos enjaulados, alguns em promoção. Pelas alamedas e ruas, os donos levam rottweilers, dachshunds e cockers spaniels, com cara de orgulhosos da sujeira que seus pets fazem à medida que desfilam diante dos passantes encantados.
Os cães raçudos já são os senhores da calçada. Os donos em geral não observam a lei do município, que obriga o uso de pá e saco plástico para recolher seus dejetos.Também não faz diferença, porque calçada mesmo não existe na cidade... Os adoráveis peludos têm hotel, butique, loja, restaurante e agora até um serviço de seguros que oferece banho e tosa em casa!
Há raças mais “fashion” que outras. Por exemplo, os donos de pitbull andam com vergonha dos bichos e tentam se livrar deles, por razões óbvias. Isto tem ocorrido muito: como viraram produtos, os pets deixam de ser pets quando crescem, perdem a graça e aumentam a produção de excrementos. As crianças os rejeitam, os adultos passam a detestá-los. Alguém ainda tem um pequinês como mascote? Nunca mais vi aqueles cachorros anões, de orelhas enormes e língua para fora, latindo com o focinho nos portões, prontos para morder. Os pequineses saíram de moda e foram expulsos dos lares.
Fui ao cinema e percebi que eles já são astros do mutliplex. O filme Vira-Lata, da Disney, está para estrear, contando a história de superação de um beagle abandonado, num mundo em que pedigrees mais altos são cada vez mais valorizados. E é obrigado a conviver com os vira-latas.
Se beagles e pequineses não têm mais valor, o que dizer dos vira-latas? Reparei que os cães sem dono não andam mais pela “zonas nobres” da cidade. Pelo jeito, tiveram o mesmo destino dos pequineses: foram banidos do mapa – e do nosso afeto. Eu me lembro de um tempo em que as crianças não jogavam fora seus mascotes. E se alegravam com o abanar do rabo de um amado vira-lata. Mas hoje tudo está mudado: até catador de papel tem husky siberiano para puxar carroça.
No shopping center, são vendidos na vitrina, umas fofuras a peso de ouro. Mesmo num parque, no domingo passado, gastei parte de meu tempo admirando animaizinhos enjaulados, alguns em promoção. Pelas alamedas e ruas, os donos levam rottweilers, dachshunds e cockers spaniels, com cara de orgulhosos da sujeira que seus pets fazem à medida que desfilam diante dos passantes encantados.
Os cães raçudos já são os senhores da calçada. Os donos em geral não observam a lei do município, que obriga o uso de pá e saco plástico para recolher seus dejetos.Também não faz diferença, porque calçada mesmo não existe na cidade... Os adoráveis peludos têm hotel, butique, loja, restaurante e agora até um serviço de seguros que oferece banho e tosa em casa!
Há raças mais “fashion” que outras. Por exemplo, os donos de pitbull andam com vergonha dos bichos e tentam se livrar deles, por razões óbvias. Isto tem ocorrido muito: como viraram produtos, os pets deixam de ser pets quando crescem, perdem a graça e aumentam a produção de excrementos. As crianças os rejeitam, os adultos passam a detestá-los. Alguém ainda tem um pequinês como mascote? Nunca mais vi aqueles cachorros anões, de orelhas enormes e língua para fora, latindo com o focinho nos portões, prontos para morder. Os pequineses saíram de moda e foram expulsos dos lares.
Fui ao cinema e percebi que eles já são astros do mutliplex. O filme Vira-Lata, da Disney, está para estrear, contando a história de superação de um beagle abandonado, num mundo em que pedigrees mais altos são cada vez mais valorizados. E é obrigado a conviver com os vira-latas.
Se beagles e pequineses não têm mais valor, o que dizer dos vira-latas? Reparei que os cães sem dono não andam mais pela “zonas nobres” da cidade. Pelo jeito, tiveram o mesmo destino dos pequineses: foram banidos do mapa – e do nosso afeto. Eu me lembro de um tempo em que as crianças não jogavam fora seus mascotes. E se alegravam com o abanar do rabo de um amado vira-lata. Mas hoje tudo está mudado: até catador de papel tem husky siberiano para puxar carroça.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
A bilhteira mística
Maura tem 26 anos e gastou tempo demais pensando no que fazer da vida. Namorou e brigou. Queria sair da casa dos pais na Vila Clarice e não conseguiu. Começou muitos cursos e os trancou. Imaginou projetos que não foram adiante até que abandonou seus ideais na ilusão de náo sofrer. Dispersou o seu talento na indecisão.
De dúvida em dúvida, há dois anos acabou sendo aprovada em um concurso como funcionária do metrô, e se rendeu à necessidade de trabalhar. No primeiro dia, já a jogaram no guichê de vendas de bilhetes. Tremeu cada minuto das oito horas de expediente.
Voltou para casa tremendo. Quase não conseguiu dormir. “Não possso aguentar”, pensou enquanto virava de um lado a outro na cama. A resolução lhe deu tanto alívio que sonhou até que o despertador a chamasse às 6 da manhã. A mãe avisou-a de que tinha de pegar no serviço dali a uma hora. “Não vou”, anunciou, a cabeça debaixo do travesseiro. A mãe insistiu, trouxe-lhe café com pão. Meio a contragosto, prometeu tentar uma última vez. Chegou atrasada porque errou o endereço.
Aos poucos, acostumou-se à rotina – e ao salário baixo. Progrediu, não na carreira, mas por dentro. Seu sorriso pode ser visto no guichê ou diante das catracas na estação Barra Funda. Logo ela, que sempre se extraviou no tempo e no espaço, tomou gosto de orientar os passageiros. Voltou até ao curso de Inglês, para lidar com os estrangeiros, que lhe enchem de perguntas, e não só sobre itinerários: querem dicas de passeios e sugestões de roteiro cultural.
Mas o que deixou Maura surpresa foi o comportamento dos passageiros. Jamais pensou que as pessoas fossem tão carentes. Passou a notar que as filas diferenciam umas das outras, e cada uma das dezenas de pessoas que compõe as filas tem personalidade própria. Estranhou que em geral elas não compram bilhetes múltiplos. Querem uma passagem de cada vez, talvez para bater papo ou lhe dar bom-dia.
Fila é área de lazer, concluiu. Uns confessam segredos, outros querem opiniões sobre quaisquer assuntos, pechincham, levam presentes e santinhos. Há quem se aconselhe sobre teorias filosóficas. Um sujeito aparece por lá todos os dias. Espera horas só para, quando chega a sua vez, olhar no fundo do olho de Maura. Seria hipnotismo ou xaveco? Outra tarde uma senhora pediu que previsse o seu futuro, sem ligar para quem vinha atrás. Eu mesmo gosto de passar pela estação só para praticar meu inglês com ela. Maura acha graça:. “Neste trabalho, descobri que as pessoas se sentem seguras na fila. E que são muito mais perdidas do que eu!” Enfim, encontrou sua vocação: guru...
.
De dúvida em dúvida, há dois anos acabou sendo aprovada em um concurso como funcionária do metrô, e se rendeu à necessidade de trabalhar. No primeiro dia, já a jogaram no guichê de vendas de bilhetes. Tremeu cada minuto das oito horas de expediente.
Voltou para casa tremendo. Quase não conseguiu dormir. “Não possso aguentar”, pensou enquanto virava de um lado a outro na cama. A resolução lhe deu tanto alívio que sonhou até que o despertador a chamasse às 6 da manhã. A mãe avisou-a de que tinha de pegar no serviço dali a uma hora. “Não vou”, anunciou, a cabeça debaixo do travesseiro. A mãe insistiu, trouxe-lhe café com pão. Meio a contragosto, prometeu tentar uma última vez. Chegou atrasada porque errou o endereço.
Aos poucos, acostumou-se à rotina – e ao salário baixo. Progrediu, não na carreira, mas por dentro. Seu sorriso pode ser visto no guichê ou diante das catracas na estação Barra Funda. Logo ela, que sempre se extraviou no tempo e no espaço, tomou gosto de orientar os passageiros. Voltou até ao curso de Inglês, para lidar com os estrangeiros, que lhe enchem de perguntas, e não só sobre itinerários: querem dicas de passeios e sugestões de roteiro cultural.
Mas o que deixou Maura surpresa foi o comportamento dos passageiros. Jamais pensou que as pessoas fossem tão carentes. Passou a notar que as filas diferenciam umas das outras, e cada uma das dezenas de pessoas que compõe as filas tem personalidade própria. Estranhou que em geral elas não compram bilhetes múltiplos. Querem uma passagem de cada vez, talvez para bater papo ou lhe dar bom-dia.
Fila é área de lazer, concluiu. Uns confessam segredos, outros querem opiniões sobre quaisquer assuntos, pechincham, levam presentes e santinhos. Há quem se aconselhe sobre teorias filosóficas. Um sujeito aparece por lá todos os dias. Espera horas só para, quando chega a sua vez, olhar no fundo do olho de Maura. Seria hipnotismo ou xaveco? Outra tarde uma senhora pediu que previsse o seu futuro, sem ligar para quem vinha atrás. Eu mesmo gosto de passar pela estação só para praticar meu inglês com ela. Maura acha graça:. “Neste trabalho, descobri que as pessoas se sentem seguras na fila. E que são muito mais perdidas do que eu!” Enfim, encontrou sua vocação: guru...
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Traiu ou não?
É a carioca mais falada em São Paulo. Não passa um dia sem que eu ouça o nome de Capitu. A moça alta, de rosto quadrado, nariz afilado, cabelos escuros e olhos grandes, claros e arrevezados parece viva, e não feita de letras. Ela se estabeleceu de tal modo na imaginação das pessoas, que chego a pensar que a personagem está ofuscando o seu criador, Machado de Assis. Agora a intrigante personagem dá nome a uma minissérie de televisão. Era o que faltava para virar celebridade..
Assim como o Sherlock Holmes enterrou seu criador, Conan Doyle, Capitu devora Machado - e no ano de celebração do centenário de sua morte. Capitolina pulsa e fascina. E Machado? Apesar de venerado, sua imagem pública não passa de uma escultura em bronze miúda na porta do prédio da Academia Brasileira de Letras. Agora ele a estátua é lembrada porque deu à luz a femme fatale brasileira.
Capitu surge no romance Dom Casmurro, publicado no fim de 1899. Quando eu tinha uns 20 anos, muito tempo atrás, achei um exemplar da segunda edição do livro. A Tipografia Garnier Irmãos imprimiu em Paris uma segunda tiragem em abril de 1900. Certamente Machado aprovou o volume – quem sabe tenha folheado este aqui... Talvez isso não signifique nada, mas me sinto privilegiado por ter conhecido Dom Casmurro nessa tiragem específica. Nas incontáveis situações que o li, sempre faço uma descoberta.E me inebrio ao folhear as páginas amarelecidas e rever as palavras em velha ortografia. Assim, Capitu é “Capitú”, com acento no final, o que faz com que pareça um nome ransgressivo, até ortograficamente. Porque melhor que ler Dom Casmurro, é deslê-lo. É voluptuoso perseguir os rastros do enredo a contrapelo, como um legista das artes.
Reler é sempre um desler. Dom Casmurro prova que a obra de arte muda com o tempo – e com os leitores. Em 110 anos, o livro foi submetido a tantos leitores, leituras e versões. O interesse vem de uma dúvida vulgar: teria Capitu traído Bentinho com o melhor amigo dele, Escobar, ou é uma vítima, a Desdêmona do Otelo Brasileiro?
É a conversa de bar mais antiga do mundo. Aposto que ela o traiu – se não por atos, pelo menos em palavras. No velório de Escobar, Bentinho nota que Capitu traga o cadáver com o olhar. São os “olhos de ressaca” que engolfam o amante, morto por afogamento. Os olhos carregam-no de volta ao mar, para espanto do narrador inseguro. Treme de pavor do desejo dela. Naquele instante, como em outros, o ciúme denso de Bentinho lança Capitu e Escobar ao adultério. O enredo é dele, afinal...
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Assim como o Sherlock Holmes enterrou seu criador, Conan Doyle, Capitu devora Machado - e no ano de celebração do centenário de sua morte. Capitolina pulsa e fascina. E Machado? Apesar de venerado, sua imagem pública não passa de uma escultura em bronze miúda na porta do prédio da Academia Brasileira de Letras. Agora ele a estátua é lembrada porque deu à luz a femme fatale brasileira.
Capitu surge no romance Dom Casmurro, publicado no fim de 1899. Quando eu tinha uns 20 anos, muito tempo atrás, achei um exemplar da segunda edição do livro. A Tipografia Garnier Irmãos imprimiu em Paris uma segunda tiragem em abril de 1900. Certamente Machado aprovou o volume – quem sabe tenha folheado este aqui... Talvez isso não signifique nada, mas me sinto privilegiado por ter conhecido Dom Casmurro nessa tiragem específica. Nas incontáveis situações que o li, sempre faço uma descoberta.E me inebrio ao folhear as páginas amarelecidas e rever as palavras em velha ortografia. Assim, Capitu é “Capitú”, com acento no final, o que faz com que pareça um nome ransgressivo, até ortograficamente. Porque melhor que ler Dom Casmurro, é deslê-lo. É voluptuoso perseguir os rastros do enredo a contrapelo, como um legista das artes.
Reler é sempre um desler. Dom Casmurro prova que a obra de arte muda com o tempo – e com os leitores. Em 110 anos, o livro foi submetido a tantos leitores, leituras e versões. O interesse vem de uma dúvida vulgar: teria Capitu traído Bentinho com o melhor amigo dele, Escobar, ou é uma vítima, a Desdêmona do Otelo Brasileiro?
É a conversa de bar mais antiga do mundo. Aposto que ela o traiu – se não por atos, pelo menos em palavras. No velório de Escobar, Bentinho nota que Capitu traga o cadáver com o olhar. São os “olhos de ressaca” que engolfam o amante, morto por afogamento. Os olhos carregam-no de volta ao mar, para espanto do narrador inseguro. Treme de pavor do desejo dela. Naquele instante, como em outros, o ciúme denso de Bentinho lança Capitu e Escobar ao adultério. O enredo é dele, afinal...
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Nosso amigo, o rato
O longa-metragem de animação Ratatouille, da Disney-Pixar, que acaba de sair em DVD, narra a ascensão de um ratinho, Rémy, de fascinado por comidas sofisticadas até se tornar no grande chef de um restaurante de Paris. Quando a turma do cozinha descobre quem era o gênio do lugar, todo mundo sai em debandada. E aí assoma o momento mais épico do filme: uma horda de ratos, sob o comando de Rémy, toma posse da cozinha e passa a produzir os pratos mais refinados do mundo – chegando a conquistar cinco estrelas do crítico mais cricri do pedaço. Nos extras do DVD, há um curta-metragem, intitulado “Seu amigo rato”, em que Rémy defende a idéia de que homens e ratos deverão viver em harmonia daqui para frente, até porque ambas as espécies são as mais preparadas para sobreviver a uma provável hecatombe ecológica (Rémy não menciona as baratas nem os cupins).
A Disney vem se esforçando desde 1928, quando criou Mickey, para que simpatizemos com os roedores. Nas historinhas, pode ser. Mas, de fato, a humanidade continua a alimentar um horror ancestral aos ratinhos de todas espécies. Acabo de ler a notícia de que os ratos anteciparam os homens e já se globalizaram. Porque a globalização humana ainda é de capital, não de circulação de indivíduos – pois seguimos leis internacionais que limitam fenômenos como, por exemplo, uma invasão de chineses na Europa. Ou que os paulistanos mais afortunados se mudem em definitivo para Nova York. Os ratos não precisam de passaporte e estão em toda parte.
São Paulo não é exceção, pois experimenta uma praga endêmica de ratos de telhado. Eles vivem nos forros e sótãos das casas e nos terraços dos prédios mais altos. Surgem pelos vasos sanitários, calhas e bocas-de-lobo, devorando o que encontram pela frente. Numa noite dessas fui ver um concerto no Teatro Municipal. Juro: durante a pausa da orquestra ouvi ruídos de mastigação – e não pareciam aqueles chatos que abrem balas durante um "adagio" em pianíssimo. Eram ratinhos felizes! Com capacidade para mais de mil espectadores humanos, o Municipal deve abrigar uma população correspondente de melômanos roedores.
Desratizar SP seria uma campanha útil. Mas o prefeito e seus subs estão mais interessados em fazer a “higienização social”, caçando pobres em favelas históricas para liberar os terrenos para as grandes torres das incorporadoras. Os ratos assistem de camarote ao “espetáculo do crescimento” da indústria civil. Afinal, adoram mascar cimento e concreto armado. Apreciam também a dieta dos mais ricos. Estão prontos, como Rémy, para aperfeiçoar seu paladar nos novos “espaços gourmets” dos condomínios que sobem às nuvens. Pelo jeito, o cidadão vai ter de se unir a eles. Será a esperada ratização de uma longa amizade.
A Disney vem se esforçando desde 1928, quando criou Mickey, para que simpatizemos com os roedores. Nas historinhas, pode ser. Mas, de fato, a humanidade continua a alimentar um horror ancestral aos ratinhos de todas espécies. Acabo de ler a notícia de que os ratos anteciparam os homens e já se globalizaram. Porque a globalização humana ainda é de capital, não de circulação de indivíduos – pois seguimos leis internacionais que limitam fenômenos como, por exemplo, uma invasão de chineses na Europa. Ou que os paulistanos mais afortunados se mudem em definitivo para Nova York. Os ratos não precisam de passaporte e estão em toda parte.
São Paulo não é exceção, pois experimenta uma praga endêmica de ratos de telhado. Eles vivem nos forros e sótãos das casas e nos terraços dos prédios mais altos. Surgem pelos vasos sanitários, calhas e bocas-de-lobo, devorando o que encontram pela frente. Numa noite dessas fui ver um concerto no Teatro Municipal. Juro: durante a pausa da orquestra ouvi ruídos de mastigação – e não pareciam aqueles chatos que abrem balas durante um "adagio" em pianíssimo. Eram ratinhos felizes! Com capacidade para mais de mil espectadores humanos, o Municipal deve abrigar uma população correspondente de melômanos roedores.
Desratizar SP seria uma campanha útil. Mas o prefeito e seus subs estão mais interessados em fazer a “higienização social”, caçando pobres em favelas históricas para liberar os terrenos para as grandes torres das incorporadoras. Os ratos assistem de camarote ao “espetáculo do crescimento” da indústria civil. Afinal, adoram mascar cimento e concreto armado. Apreciam também a dieta dos mais ricos. Estão prontos, como Rémy, para aperfeiçoar seu paladar nos novos “espaços gourmets” dos condomínios que sobem às nuvens. Pelo jeito, o cidadão vai ter de se unir a eles. Será a esperada ratização de uma longa amizade.
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